Janeiro chegou trazendo calor intenso, clima de férias e a contagem regressiva para o Carnaval. Em Salvador, as casas ganham cheiro de churrasco aos fins de semana, as varandas viram ponto de encontro e a água passa a ocupar papel central na rotina: seja na piscina do condomínio, na “piscininha” improvisada no quintal ou no mergulho no mar azul da capital baiana. Mas, em meio a esse ambiente de descontração, especialistas reforçam um alerta que nunca sai de moda: quando há água por perto, todo cuidado é pouco, especialmente com as crianças em piscinas, na beira da praia ou no rasinho inocente.
Na orla da Barra, uma das praias mais movimentadas neste início de ano, o engenheiro Carlos Menezes, de 41 anos, acompanha de perto cada passo da filha de 5 anos na beira do mar. Ele não desgruda os olhos nem por alguns segundos. “A gente vem para relaxar, mas não dá para baixar a guarda. Salvador está cheia, o mar engana, parece tranquilo e, quando você vê, a criança já está mais longe. Prefiro ficar cansado de vigiar do que me arrepender depois”, afirma.
Travessas por natureza, curiosas e ainda sem noção real de perigo, as crianças são justamente o grupo mais vulnerável.
Segundo a coordenação da Salvamar, a maior parte das ocorrências acontece justamente em dias de sol forte, seja nas praias ou nas piscinas, geralmente quando o mar está aparentemente calmo e grande concentração de banhistas e nas festas perto da piscina com muita gente, onde a atenção fica dividida, entre a bebida, a comida e a música. O ideal nesses casos é deixar as crianças sempre com bóias presas ao corpo.
Embora os registros de ocorrências nas praias envolvam banhistas de todas as idades, o aumento da movimentação no verão impacta diretamente o trabalho das equipes de salvamento. Apenas nos primeiros dias de 2026, Salvador registrou quase 80 atendimentos de resgate por afogamento na orla, segundo dados da Coordenadoria de Salvamento Marítimo (Salvamar), da Prefeitura. O número reflete o crescimento do fluxo de pessoas nas praias durante o período de férias escolares e altas temperaturas.
Quando o olhar se volta especificamente para o público infantil, o alerta ganha ainda mais peso. Dados do Ministério da Saúde apontam que o afogamento segue entre as principais causas de morte acidental de crianças de 1 a 4 anos no Brasil. A Sociedade Brasileira de Pediatria reforça que, em média, três crianças e adolescentes morrem por afogamento todos os dias no país, muitos desses casos acontecendo longe das grandes ondas do mar, dentro de casa, em piscinas residenciais, caixas d’água destampadas, baldes e banheiras.
Na Pituba, a comerciante Jéssica Andrade, mãe de dois meninos, conta que passou a adotar estratégias simples para evitar sustos nas piscinas do prédio e do clube onde frequenta “Eu coloco pulseira de identificação, combino um ponto fixo com eles e sempre fico perto A diversão é maravilhosa, a gente tem a sensação de segurança, maravilhosa, mas é preciso ter organização, porque criança se distrai muito rápido”, relata.
ASalvamar reforça que muitos resgates poderiam ser evitados com atitudes simples, como respeitar a sinalização por bandeiras, salva-vidas em clubes, nas praias permanecer próximo aos postos de guarda-vidas, evitar áreas de correnteza e manter atenção permanente às crianças, mesmo quando elas estão brincando na parte rasa ou parecem ter intimidade com a água.
Esse perigo mora justamente onde muitos pais acreditam estar seguros. Na praia de Itapuã, a professora aposentada Lúcia Ferreira, que cuida dos dois netos durante as férias escolares, diz que mudou hábitos antigos. “Antes eu sentava na cadeira e ficava olhando de longe. Hoje não. Eu entro junto na água, fico perto, sem celular. Aprendi que afogamento não faz barulho”, conta.
Afogamento de criança pode ser silencioso, por isso atenção redobrada
– Especialistas explicam que o afogamento infantil costuma ser silencioso. Não há gritos, nem pedidos de ajuda. Em poucos segundos, a criança pode submergir sem chamar atenção, especialmente em ambientes familiares, onde a vigilância tende a relaxar durante reuniões, festas e almoços de domingo.
Por isso, as orientações das entidades de saúde e salvamento são claras: a supervisão precisa ser constante e ativa. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, estar no mesmo ambiente não basta. É necessário manter os olhos atentos, sem distrações com celular, televisão ou conversas prolongadas. Em residências com piscina, a recomendação é instalar cercas de proteção com portões de fechamento automático, criando uma barreira física entre a criança e a água.
Outro ponto de atenção é o uso de boias infláveis, muito comuns no verão. A Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático alerta que esses itens não substituem a vigilância de um adulto e podem transmitir uma falsa sensação de segurança. Já nas piscinas de plástico, tão presentes nos quintais soteropolitanos nesta época do ano, a orientação é simples e direta: terminou o banho, a água deve ser descartada imediatamente. Mesmo poucos centímetros são suficientes para provocar um afogamento em bebês e crianças pequenas.
Regras básicas – Médicos pediatras destacam ainda a importância de ensinar, desde cedo, regras básicas de convivência com a água, incentivar o aprendizado da natação de forma segura e orientar as crianças sobre limites, mesmo em ambientes aparentemente tranquilos.
Em situações de emergência, a recomendação é acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193 ou o Samu pelo 192. Profissionais alertam que tentar “retirar a água” do corpo da vítima sacudindo-a é um erro comum e perigoso. O correto é buscar ajuda especializada o mais rápido possível.






