{"id":7012,"date":"2024-01-17T14:53:52","date_gmt":"2024-01-17T17:53:52","guid":{"rendered":"https:\/\/diabahia.com.br\/?p=7012"},"modified":"2024-01-17T14:53:55","modified_gmt":"2024-01-17T17:53:55","slug":"desenvolvimento-ainda-nao-chegou-aqui-diz-lider-quilombola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diabahia.com.br\/index.php\/2024\/01\/17\/desenvolvimento-ainda-nao-chegou-aqui-diz-lider-quilombola\/","title":{"rendered":"&#8220;Desenvolvimento ainda n\u00e3o chegou aqui&#8221;, diz l\u00edder quilombola"},"content":{"rendered":"\n<p>As palmas param quase no mesmo instante em que a cantiga termina. \u201cPapai, mam\u00e3e, dindinha, cad\u00ea vov\u00f3? \u00ca\u00ea\u00ea\u00ea\u2026 \u00e9 do bendeng\u00f3. \u00ca\u00ea\u00ea\u00ea\u2026 \u00e9 do bendeng\u00f3\u201d. O verso \u00e9 de uma das cantigas que os moradores da vila de Barra do Brumado costumam cantar quando se re\u00fanem. Os turistas, ainda em c\u00edrculo, ouvem atentamente o l\u00edder da comunidade quilombola falar. \u201cO desenvolvimento ainda n\u00e3o chegou totalmente aqui\u201d, diz ele. Meses depois, em entrevista para reportagem especial, Carmo Joaquim da Silva, o seu Carmo, de 67 anos, detalha o que quis dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu estava falando sobre o progresso pol\u00edtico porque (somos) a comunidade mais antiga de Rio de Contas e n\u00e3o somos vistos como sociedade. At\u00e9 agora, a gente ainda vive na in\u00e9rcia, s\u00f3 tapea\u00e7\u00e3o no momento pol\u00edtico para enganar os quilombolas\u201d, pondera Seu Carmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Professor e t\u00e9cnico de enfermagem, Carmo \u00e9 um dos moradores da comunidade quilombola da Barra do Brumado ou apenas Barra, vilarejo que fica a 15 quil\u00f4metros da cidade de Rio de Contas, na Chapada Diamantina, e se tornou um atrativo tur\u00edstico. H\u00e1 um tour oferecido pelos guias para visitar n\u00e3o s\u00f3 ela, onde moram cerca de 70 fam\u00edlias, como o Bananal, tamb\u00e9m quilombola, e a comunidade do Mato Grosso, de descendentes de bandeirantes portugueses.<\/p>\n\n\n\n<p>Carmo, nascido e criado na Barra, faz quest\u00e3o de detalhar como come\u00e7aram a povoar a regi\u00e3o. Um navio que trazia negros escravizados atolou em Itacar\u00e9. \u201cSomos restantes do povo de um navio negreiro que veio da \u00c1frica e atolou em Itacar\u00e9 no s\u00e9culo XVI. Percebendo-se que estavam enganados, o povo saltou no rio das contas que desemboca no mar. Quem n\u00e3o morreu nas mar\u00e9s, nas correntezas, no rio, seguiu o rio das contas\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XVIII, no entanto, eles foram encontrados por bandeirantes portugueses. \u201cOs bandeirantes, na companhia de Raposo Tavares, encontraram esse povo aqui em Rio de Contas e os obrigaram a trabalhar como escravos no Mato Grosso. Da\u00ed formaram-se as comunidade de Barra, Bananal e Riacho das Pedras porque n\u00e3o podia dormir em Mato Grosso, porque negro n\u00e3o dormia em vila de branco para n\u00e3o sujar a ra\u00e7a, porque o negro era impuro. Negro n\u00e3o era gente, era animal. N\u00e3o podia dormir em vila de branco\u201d, acrescenta Seu Carmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 12 de setembro de 2005, a comunidade foi certificada como remanescente de quilombo pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares. Carmo ressalta que, atualmente, as principais dificuldades enfrentadas pelos moradores est\u00e3o relacionadas a \u00e1reas como a da sa\u00fade. \u201cN\u00e3o h\u00e1 especialistas pr\u00f3ximos, tem que ir para (Vit\u00f3ria da) Conquista, Salvador, Caetit\u00e9, Guanambi ou Seabra. Eu mesmo estou fazendo exames em Salvador\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o grupo de turistas que visitava o local no dia se dispersa e vai conferir o artesanato local, um senhor a poucos metros dali debulha feij\u00e3o com o uso de um mangual. Atr\u00e1s dele, a serra emoldura o cen\u00e1rio. Seu Carmo conta que a comunidade vive da agricultura de subsist\u00eancia (plantio de manga, laranja, maracuj\u00e1, feij\u00e3o e mandioca), mas que h\u00e1 tamb\u00e9m muitos idosos, aposentados. \u201cO turismo e o artesanato s\u00e3o apenas uma ajuda. A gente vive tamb\u00e9m da ro\u00e7a. Todas as mulheres que s\u00e3o artes\u00e3s trabalham na ro\u00e7a. Nos momentos vagos e \u00e0 noite, fazem artesanato para ajudar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pracinha, est\u00e1 localizada a maior parte das resid\u00eancias. H\u00e1 tamb\u00e9m um cemit\u00e9rio, uma escola prim\u00e1ria, dois campos de futebol de terra, a Igreja de Nossa Senhora Aparecida (datada de 1925) e equipamentos comunit\u00e1rios como um &#8220;Centro de M\u00faltiplo Uso do Quilombo&#8221;. \u201cViver aqui \u00e9 bom. \u00c9 uma tranquilidade. Quem mora aqui vive sem preocupa\u00e7\u00e3o. Se preocupa com as necessidades da vida porque n\u00e3o tem emprego. \u00c0s vezes, a ro\u00e7a n\u00e3o produz. Uma hora perde com chuva. Outra hora perde com sol, Infelizmente, nem sempre tem \u00e1gua suficiente\u201d, frisa o l\u00edder comunit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Da inf\u00e2ncia, ele tem v\u00e1rias lembran\u00e7as, inclusive de sofrimento. \u201cNaquele tempo n\u00e3o tinha nada. Tudo era muito dif\u00edcil. Hoje est\u00e1 dif\u00edcil, mas est\u00e1 melhor. Eu saia para trabalhar fora desde os oito anos, andando a p\u00e9 at\u00e9 Livramento de Nossa Senhora\u201d. Mas houve tamb\u00e9m bons momentos. \u201cEu participava de todas as festas. N\u00e3o perdia nada aqui na regi\u00e3o. Tudo eu ia a p\u00e9 ou no burro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A guia Carla Luiza Pereira costuma levar turistas com frequ\u00eancia \u00e0 Barra. A can\u00e7\u00e3o que abre o texto foi ensinada por ela, minutos antes de chegarmos ao local. L\u00e1, ela fez quest\u00e3o de cantar com os moradores. \u201cAs comunidades da Barra e do Bananal t\u00eam uma rica hist\u00f3ria. Foram negros foragidos. Teve o naufr\u00e1gio em Itacar\u00e9 e eles foram subindo o leito at\u00e9 chegar \u00e0s margens do rio de Contas. Foram construindo suas casas, de forma salteada, para que ningu\u00e9m percebesse que estavam l\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de terem sido descobertos e escravizados, emenda Luiza, que \u00e9 presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Guias de Rio de Contas, eles foram resistindo. \u201cHavia uma terceira, a do Rio das Pedras, mas foi inundada com a constru\u00e7\u00e3o da barragem. Barra e Bananal tamb\u00e9m perderam algumas terras. Hoje, eles resistem, com a sua cultura local. Depois da prote\u00e7\u00e3o federal, conseguiram segurar mais as suas terras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Como atrativo, Luiza diz que \u00e9 importante a visita \u00e0s tr\u00eas comunidades para conhecer a hist\u00f3ria, cultura e artesanatos. \u201cTemos a portuguesa e as quilombolas. \u00c9 poss\u00edvel perceber a vasta diferen\u00e7a, de forma clara e n\u00edtida, at\u00e9 hoje de uma comunidade que \u00e9 de pele retinta e outra que n\u00e3o \u00e9\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O guia L\u00e9, que trabalha no ramo h\u00e1 25 anos, detalha que todos os dias os escravizados tinham que subir da vila quilombola para fazer trabalhos na portuguesa, que se tornou, \u00e0 \u00e9poca, um grande centro de minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, de onde foram extra\u00eddas toneladas de ouro. \u201cPara evitar a mistura de ra\u00e7as, os escravos n\u00e3o podiam ficar na vila portuguesa, tinham que fazer o caminho de volta aos quilombos, ap\u00f3s os trabalhos di\u00e1rios\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias da constru\u00e7\u00e3o da barragem foram, segundo L\u00e9, danosas para as comunidades quilombolas, principalmente para as do Rio das Pedras, que n\u00e3o existe mais, e a do Bananal. A situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 veio a ser modificada com a certifica\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Palmares. \u201cO reconhecimento trouxe alguns benef\u00edcios para os moradores que, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o tinham energia el\u00e9trica. Todo o trabalho era feito de forma artesanal. O sinal de celular s\u00f3 chegou na regi\u00e3o em 2011 e, aos poucos, o uso da internet via radio e fibra foi se popularizando\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de todos os desafios atuais e da hist\u00f3ria de sofrimento e explora\u00e7\u00e3o com a escraviza\u00e7\u00e3o, Seu Carmo espera por dias melhores. \u201cQuero ver a comunidade de outra forma. Aquilo que eu n\u00e3o alcan\u00e7ei. Que os meus sucessores n\u00e3o vivessem aquilo que a gente viveu. Que a gente fosse mais reconhecido. Que reconhecessem a dignidade do povo negro. Que tivessem uma vida mais decente. A gente sabe que est\u00e1 melhorando, mas esperamos que seja melhor. Que a gente tenha mais consci\u00eancia de que somos protagonistas dessa hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: A Tarde <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As palmas param quase no mesmo instante em que a cantiga termina. \u201cPapai, mam\u00e3e, dindinha, cad\u00ea vov\u00f3? \u00ca\u00ea\u00ea\u00ea\u2026 \u00e9 do bendeng\u00f3. \u00ca\u00ea\u00ea\u00ea\u2026 \u00e9 do bendeng\u00f3\u201d. O verso \u00e9 de uma das cantigas que os moradores da vila de Barra do Brumado costumam cantar quando se re\u00fanem. 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