{"id":3482,"date":"2023-09-06T10:26:32","date_gmt":"2023-09-06T13:26:32","guid":{"rendered":"https:\/\/diabahia.com.br\/?p=3482"},"modified":"2023-09-06T10:26:35","modified_gmt":"2023-09-06T13:26:35","slug":"sarampo-matava-mais-de-26-milhoes-por-ano-no-mundo-antes-de-vacinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diabahia.com.br\/index.php\/2023\/09\/06\/sarampo-matava-mais-de-26-milhoes-por-ano-no-mundo-antes-de-vacinas\/","title":{"rendered":"Sarampo matava mais de 2,6 milh\u00f5es por ano no mundo antes de vacinas"},"content":{"rendered":"\n<p>Integrante da Comiss\u00e3o Permanente de Assessoramento em Imuniza\u00e7\u00f5es do Estado de S\u00e3o Paulo, Guido Levi conta que no in\u00edcio dos anos 2000 foi chamado por um grupo de residentes em uma enfermaria de doen\u00e7as infecciosas em S\u00e3o Paulo. Os jovens m\u00e9dicos estavam intrigados que nenhum exame proposto havia detectado a causa de erup\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas e febre alta que haviam levado uma crian\u00e7a \u00e0 interna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m sabia o que era. Os residentes disseram que iam apresentar os exames pedidos, que ainda n\u00e3o tinham resultados positivos, e eu falei: &#8216;Gente, n\u00e3o precisa de exame nenhum. Isso \u00e9 sarampo&#8217;. Eles ficaram muito desconfiados, porque nunca tinham visto sarampo&#8221;, lembra Guido Levi.<\/p>\n\n\n\n<p>O sucesso da imuniza\u00e7\u00e3o fez com que boa parte da popula\u00e7\u00e3o e at\u00e9 m\u00e9dicos esquecessem que o sarampo \u00e9 uma doen\u00e7a grave e letal. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, uma em cada 20 crian\u00e7as com sarampo pode desenvolver pneumonia, que \u00e9 a causa mais comum de morte por sarampo na inf\u00e2ncia. Al\u00e9m disso, cerca de uma em cada dez crian\u00e7as com sarampo desenvolvem uma otite aguda que pode resultar em perda auditiva permanente. A Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (Opas) estima que, de 2000 a 2017, a vacina\u00e7\u00e3o contra o sarampo evitou cerca de 21,1 milh\u00f5es de mortes, tornando a vacina um dos melhores investimentos em sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O sarampo era uma das doen\u00e7as mais graves que acometiam a inf\u00e2ncia e uma das que causavam maior mortalidade. Quando fui consultor do Hospital Infantil da Cruz Vermelha Brasileira, em S\u00e3o Paulo, no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980, metade do hospital era tomada por crian\u00e7as com sarampo, e com alt\u00edssima mortalidade&#8221;, lembra Guido Levi, que viu as vacinas transformarem esse cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A imuniza\u00e7\u00e3o conseguiu eliminar essa doen\u00e7a n\u00e3o apenas do Brasil, mas de todo o continente americano, o que foi reconhecido pela Opas em 27 de setembro de 2016. Na \u00e9poca, a organiza\u00e7\u00e3o lembrou que o sarampo chegou a matar 2,6 milh\u00f5es de pessoas por ano no mundo antes da d\u00e9cada de 1980. Para se ter uma ideia do que esse n\u00famero representa, ele \u00e9 maior do que o total de v\u00edtimas da covid-19 no primeiro ano de pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o contra o sarampo no Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00f5es (PNI), que completa 50 anos em 2023, se d\u00e1 por meio das vacinas tr\u00edplice viral e tetra viral. A primeira \u00e9 aplicada quando a crian\u00e7a completa o primeiro ano de vida, e protege contra sarampo, caxumba e rub\u00e9ola. J\u00e1 a segunda \u00e9 indicada para os 15 meses de vida, com ao menos 30 dias de intervalo ap\u00f3s a tr\u00edplice viral.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tetra viral, al\u00e9m das tr\u00eas doen\u00e7as da tr\u00edplice, a prote\u00e7\u00e3o inclui a varicela, causadora da catapora na inf\u00e2ncia e da herpes zoster na vida adulta. Quando a tetra n\u00e3o estiver dispon\u00edvel no posto, ela pode ser substitu\u00edda por uma dose da tr\u00edplice viral e uma dose da vacina varicela monovalente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Risco permanente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A coordenadora da Assessoria Cl\u00ednica do Instituto de Tecnologia em Imunobiol\u00f3gicos da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos\/Fiocruz), Lurdinha Maia, destaca que a percep\u00e7\u00e3o de que o sarampo \u00e9 uma doen\u00e7a grave n\u00e3o pode se perder, porque somente a vacina\u00e7\u00e3o em altas coberturas pode impedir que o alto n\u00edvel de mortalidade retorne.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA vis\u00e3o que se tem da gravidade de uma doen\u00e7a \u00e9 muito importante. O sarampo n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a trivial. A cada mil crian\u00e7as, pode haver at\u00e9 3 mortes. Pode haver encefalite, otite, pneumonia\u201d, destaca ela. \u201cHouve uma queda de 80% nas mortes por sarampo entre 2000 e 2017 no mundo. Em 2017, 85% das crian\u00e7as do mundo receberam uma dose da vacina contra o sarampo no primeiro ano de vida. Mas uma \u00fanica dose n\u00e3o interrompe a circula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o d\u00e1 a prote\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. E a gente precisa cumprir a meta de 95%.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O sarampo tamb\u00e9m \u00e9 uma doen\u00e7a que pode causar sequelas severas. A superintendente de pr\u00e1ticas assistenciais da AACD, Alice Rosa Ramos, cita que crian\u00e7as e adultos podem permanecer com grandes comprometimentos visuais, auditivos, intelectuais e f\u00edsicos ap\u00f3s um quadro de sarampo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cS\u00e3o crian\u00e7as que v\u00e3o precisar ser cuidadas ao longo de toda vida. A p\u00f3lio causa a paralisia fl\u00e1cida, que \u00e9 o m\u00fasculo atrofiado, mas molinho. Mas, tanto no sarampo como na meningite, a gente tem uma les\u00e3o cerebral. Ocorre um aumento do t\u00f4nus muscular, causado por uma les\u00e3o central, com m\u00fasculos muito tensos, que fazem a pessoa entrar em v\u00e1rias deformidades\u201d, compara ela, que detalha: \u201cNa vis\u00e3o, posso ter desde a baixa de vis\u00e3o at\u00e9 a cegueira total. Da mesma forma que no intelecto, que posso ter crian\u00e7as que entendem um pouco ou que deixam de entender absolutamente tudo. E isso pode afetar um adulto tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Preven\u00edvel h\u00e1 d\u00e9cadas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o contra o sarampo no Brasil foi iniciada em 1967, e a preven\u00e7\u00e3o contra a doen\u00e7a j\u00e1 fazia parte do primeiro calend\u00e1rio b\u00e1sico de imuniza\u00e7\u00e3o dos menores de 1 ano de idade, institu\u00eddo dez anos depois. Altamente transmiss\u00edvel, essa virose levou quase 60 anos para ser considerada eliminada do pa\u00eds, com o sucesso da imuniza\u00e7\u00e3o, mas apenas dois anos de baixas coberturas vacinais permitiram que ela voltasse, em 2018. Para especialistas em vacina\u00e7\u00e3o, esse retorno \u00e9 um exemplo concreto de que n\u00e3o se pode relaxar com a preven\u00e7\u00e3o \u00e0s doen\u00e7as imunopreven\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a consultora da Opas e ex-coordenadora do Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00f5es (PNI), Carla Domingues, \u00e9 necess\u00e1rio um trabalho forte de comunica\u00e7\u00e3o para que a popula\u00e7\u00e3o volte a reconhecer os riscos de n\u00e3o se vacinar e de n\u00e3o vacinar seus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Bastaram dois anos para o pa\u00eds ter surtos importantes, virar end\u00eamico e perder a certifica\u00e7\u00e3o de pa\u00eds livre do sarampo. \u00c9 algo que pode acontecer com a p\u00f3lio. Tamb\u00e9m podemos voltar a ter surtos de difteria, meningite, coqueluche. Apesar de n\u00e3o vermos mais essas doen\u00e7as, se deixarmos de vacinar, elas voltar\u00e3o a ser problemas de sa\u00fade p\u00fablica.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os riscos que esse problema pode causar v\u00e3o al\u00e9m do adoecimento das pr\u00f3prias pessoas infectadas por esses v\u00edrus e bact\u00e9rias, explica Carla Domingues. Como a pandemia de covid-19 mostrou, surtos de uma doen\u00e7a for\u00e7am os servi\u00e7os de sa\u00fade a destinar recursos humanos e f\u00edsicos ao tratamento dela, o que pode prejudicar outros pacientes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se hoje n\u00f3s temos leitos para cuidar de acidentes de tr\u00e2nsito e para cuidar de doen\u00e7as n\u00e3o transmiss\u00edveis como c\u00e2ncer e diabetes, \u00e9 porque a gente n\u00e3o tem mais esses leitos sendo utilizados para doen\u00e7as imunopreven\u00edveis. Se a gente voltar a ter surtos dessas doen\u00e7as, teremos um esgotamento do servi\u00e7o de sa\u00fade, como o exemplo que a gente acabou de ver com a covid-19, em que doen\u00e7as deixaram de ser tratadas porque precis\u00e1vamos tratar a covid-19.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esquema de duas doses<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o contra o sarampo sofre de um problema comum a vacinas cujo esquema vacinal requer mais de uma dose: a baixa na ades\u00e3o. Em 2018, quando o sarampo voltou a causar surtos no pa\u00eds, a primeira dose da tr\u00edplice viral havia chegado a 92% das crian\u00e7as, perto da meta de 95%. A segunda dose, por\u00e9m, teve uma cobertura de apenas 76%.<\/p>\n\n\n\n<p>A taxa de prote\u00e7\u00e3o era ainda pior na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, justamente onde o surto come\u00e7ou. No Amap\u00e1, apenas 64% receberam a segunda dose naquele ano, e, no Par\u00e1, o percentual foi de 60%.<\/p>\n\n\n\n<p>A presidente da Sociedade Brasileira de Imuniza\u00e7\u00f5es, M\u00f4nica Levi, refor\u00e7a que, al\u00e9m de atingir a meta, \u00e9 preciso garantir que o resultado seja homog\u00eaneo. Isto \u00e9: que todos os estados e munic\u00edpios ao menos se aproximem do percentual desejado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente n\u00e3o pode ter nichos localizados de n\u00e3o vacinados. Se n\u00e3o se p\u00f5e tudo a perder. Tem que ter homogeneidade. Todos os locais t\u00eam que ter cobertura minimamente alta para que o pa\u00eds fique protegido&#8221;, argumenta ela, que explica que o v\u00edrus consegue furar o bloqueio e entrar se um grupo espec\u00edfico n\u00e3o estiver protegido. &#8220;N\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o s\u00f3 com equidade social. \u00c9 claro que isso \u00e9 importante. Mas, se voc\u00ea largar um grupo para tr\u00e1s, a doen\u00e7a vai trazer riscos para todo mundo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em 2019, o problema da falta de homogeneidade havia sido diagnosticado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que apontou que, dos 5.570 munic\u00edpios brasileiros, 2.751 (49%) n\u00e3o atingiram a meta de cobertura vacinal contra o sarampo em 2018. No Par\u00e1, 83,3% dos munic\u00edpios n\u00e3o haviam atingido a meta; em Roraima, 73,3%; e no Amazonas, 50%.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Surto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O surto de sarampo que teve in\u00edcio na regi\u00e3o amaz\u00f4nica rapidamente se espalhou entre diversos estados. Em apenas um ano, o Brasil saltou de zero caso para mais de 10 mil, ainda concentrados principalmente no Amazonas, Roraima e Par\u00e1. No ano seguinte, 2019, o n\u00famero de casos dobrou, para 20 mil. Naquele ano, S\u00e3o Paulo passou a ser o centro do surto de sarampo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos seguintes, o surto perdeu for\u00e7a, mas a doen\u00e7a continua a circular no pa\u00eds. Em 2020, foram confirmados 8.448 casos e, em 2021, 676. Apesar disso, o Observat\u00f3rio de Sa\u00fade na Inf\u00e2ncia (Observa Inf\u00e2ncia), projeto da Fiocruz e da Faculdade de Medicina de Petr\u00f3polis (FMP\/UNIFASE), mostra que a doen\u00e7a causou em 2020 o maior n\u00famero de v\u00edtimas infantis no Brasil em quase duas d\u00e9cadas: foram dez mortes abaixo dos 5 anos. Entre 2018 e 2021, o n\u00famero de mortes nessa faixa et\u00e1ria chegou a 26.<\/p>\n\n\n\n<p>A coordenadora do Observa Inf\u00e2ncia, Patr\u00edcia Boccolini, ressalta que haver uma \u00fanica morte por uma doen\u00e7a que j\u00e1 pode ser prevenida h\u00e1 tanto tempo j\u00e1 \u00e9 uma trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMortes infantis por sarampo podem ser evitadas com uma estrat\u00e9gia simples e consolidada no SUS: a vacina\u00e7\u00e3o\u201d, aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsso tem que ser sempre lembrado para a popula\u00e7\u00e3o, porque essa nova gera\u00e7\u00e3o que tem filhos agora \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o viu toda a gravidade do sarampo, da p\u00f3lio e de outras doen\u00e7as que j\u00e1 foram controladas pelas coberturas vacinais. Elas n\u00e3o t\u00eam essa percep\u00e7\u00e3o de risco, porque a grande maioria foi vacinada. N\u00e3o vemos mais pessoas com sequelas nas ruas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora avalia que tudo indica que o pa\u00eds caminha para controlar novamente o sarampo. Em 2022, foram 44 casos confirmados da doen\u00e7a, e, em 2023, ainda n\u00e3o h\u00e1 novos registros de diagn\u00f3sticos confirmados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente est\u00e1 no caminho e tudo indica que houve um controle, porque n\u00e3o tivemos nenhum caso no ano de 2023. Por\u00e9m, a gente continua ainda com baixas coberturas vacinais, apesar de todos os esfor\u00e7os do novo governo e da nova ministra. Isso \u00e9 um sinal de alerta. Por mais que n\u00e3o esteja circulando, temos baixas coberturas e isso \u00e9 um ambiente prop\u00edcio para um caso importado que possa chegar aqui. O sarampo \u00e9 extremamente contagioso. Para a gente conseguir o nosso selo novamente de pa\u00eds livre do sarampo, temos que esperar um pouco mais para ver se a situa\u00e7\u00e3o vai se manter.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista exclusiva \u00e0 R\u00e1dio Nacional, a ministra da Sa\u00fade, N\u00edsia Trindade, explicou que os surtos de sarampo que o Brasil voltou a registrar foram controlados, mas que o risco permanece enquanto a imuniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o for recuperada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Para a redu\u00e7\u00e3o do risco em rela\u00e7\u00e3o ao sarampo n\u00f3s temos que alcan\u00e7ar a cobertura que o pa\u00eds j\u00e1 teve, de mais de 90%. O que temos que fazer nesse momento \u00e9 levar a vacina para a popula\u00e7\u00e3o e sensibilizar para que ela seja aplicada.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Varela Net <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Integrante da Comiss\u00e3o Permanente de Assessoramento em Imuniza\u00e7\u00f5es do Estado de S\u00e3o Paulo, Guido Levi conta que no in\u00edcio dos anos 2000 foi chamado por um grupo de residentes em uma enfermaria de doen\u00e7as infecciosas em S\u00e3o Paulo. 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